SOBRE UMA MOCHILA

É engraçado como me apego a objeto, coisas. Não é um apego ruim, pelo contrário – gosto de pensar que é um apego carinhoso. Guardo todas as minha coisinhas com carinho e dedicação. Tenho o maior cuidado para não quebrar, não sujar, não perder. E sempre lembro de tudo que eu tenho que não está mais aqui comigo: meu abajur lindo, aquele buldogue de cerâmica bem pequenino que meu irmão comprou pra mim, meu tapete feito à mão que fui comprar em um povoado beeeem perdido lá no México… é tanto o carinho que sempre que me perguntam: do que você sente falta? A resposta sempre é: minha família, meus cachorros e minhas coisas!

Para algumas pessoas é assustador pensar que alguém pode sentir falta de coisas, mas para mim é natural colocar um valor emocional nelas. Essa semana tive que me despedir e desapegar da coisa que praticamente mudou a minha vida. Há três anos pedi para minha mãe me ajudar a escolher uma mochila porque eu iria fazer um mochilão na Europa. Fomos ver mochilas e eu acabei decidindo que se eu comprasse uma mochila nova, não ia sobrar muito para a viagem – prontamente ela falou que tinha uma mochila velhinha, e que se eu quisesse podia pegar pra mim. Essa mochila velhinha também tinha sido a companheira da minha mãe nas aventuras da vida dela. Agora, ela seria minha, na minha primeira aventura! Coloquei 10 quilos de coisas lá dentro e embarquei.

A viagem demorou umas 30 horas. Carreguei minha mochila nas costas por vários aeroportos, usei de travesseiro enquanto dormia no chão, levei para todos os lados. Chegamos no nosso destino e continuei levando para todos os lados. Eu tinha de tudo lá – roupa, comida, documentos, escova de dentes. E também estava levando comigo um pedacinho de cada lugar que eu passava com minha mochila nas costas. As ruas de Madrid, aquela praia linda em San Sebástian, os trens de Roma, o apartamento do meu namorado na Estônia.

Quando voltamos a minha mochila estava lá – me viu chorar sozinha no aeroporto, dormiu comigo de novo na sala de espera na Colômbia e por fim chegou sã e salva em casa. As alças estavam estourando – levei consertar e a guardei com carinho. Um ano depois tirei minha mochila do armário e agora nós iríamos embarcar de novo. De novo passamos por aeroportos, imigração e demoramos muito para chegar, mas chegamos inteiras.

Minha mochila me acompanhou para todos os lados. Fomos viajar, fomos andando ao supermercado e, quantas vezes voltei carregando quilos de comida nas costas! (Compre o menos de sacolas plásticas possível, haha!). Da última vez fomos à Finlândia. Saindo de casa ela já apresentou o primeiro sintoma do fim: uma alça arrebentou e a outra rasgou. Fui carregando minha mochila de aqui até lá e quando voltamos tive que me despedir.

Não a tenho mais – mas a lembrança vai ficar para sempre. Para mim não foi só uma mochila, mas um pacote de sentimentos e experiências que eu carregava comigo para todos os lados. Foi de minha mãe e trazia os sentimentos e experiências dela também. É bom ter apego e carinho às vezes – é bom saber apreciar as coisas e saber que elas podem sim trazer sentimentos bons.

Eu e minha mochila em San Sebástian

Sinto falta da minha mochila, por que antes sabia que ela estava lá no armário me esperando para a próxima aventura. Mas sou grata por todos os sentimentos e memórias boas que a falta me traz.

OBRIGADA! ❤️

 

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Ana Poli

Ana nasceu e cresceu em Jundiaí, Sao Paulo, e aos 17 anos embarcou numa aventura – forçada, diga-se de passagem – de mudar-se com a sua família para a Cidade do México. Lá se formou em Gastronomia, e aprendeu que o mundo é grande demais para passar desapercebido. Hoje em dia vive na Estônia, trabalha como cozinheira e adora viajar, comer, e contar tudo no seu blog elculinario.org.

7 Comments

  1. aaaah como eu amei esse texto <3 amo viajar e acho tão lindo quem tem esse apego sentimental a coisas que normalmente as pessoas nao dao valor! espero que sua viagem tenha sido ótima

  2. Como não amar um texto desse? Acho tão bonito quando as pessoas possuem um valor sentimental por um objeto, no começo fiquei me perguntando o porquê do texto sobre uma mochila, mas então tudo fez sentido. É uma pena que a mochila tenha estragado, mas como você disse ela sempre estará contigo. Desejei muito ao decorrer do texto que ela estivesse perfeitinha e guardada, para que assim tu pudesse ter uma recordação de suas viagens. Amei sua postagem, Ana. Eu queria muito conhecer o mundo e ter um sorriso maravilhoso no rosto, assim como a sua foto. Espero que tenha aproveitado muito!

    Com amor,
    Tom.

    • Tom, que lindo seu comentário! Fico emocionada de saber que meu texto tenha tocado o coraçao de alguém. Eu escrevi de coraçao! <3

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