Sobre (quase) ser gente grande

Bom, não. Mais ou menos.

Sexta passada concluí oficialmente o sexto semestre da minha licenciatura. Cansada, de saco cheio e como diriam meus amigos mexicanos, hasta la madre (que significa algo como “de saco cheio”, mesmo, só que pior). Motivo: o sexto semestre foi o das matérias mais chatas de toda a carreira, mas o melhor de tudo foram as práticas profissionais internas: quem me acompanha sabe que a universidade tem um restaurante-escola. Até aí tudo bem, mas o que eu nunca tinha falado é que “práticas profissionais internas” significa “pague muito dinheiro para trabalhar como gente grande, se estressar como gente grande, e ter uma notinha mixuruca no seu boletim, porque a gente nunca vai te dar mais que sete” (desculpa, pai).

Trabalhar no restaurante-escola, ao contrário do que foi trabalhar em práticas externas o ano passado, é um experiência completa.  As primeiras seis semanas foram na área de serviço do restaurante. Imagine a seguinte cena: eu, vestida de garçonete, oferecendo café para minhas clientes. Sim, ELAS, porque 90% dos clientes são mulheres, geralmente terceira idade, um pouco loucas e bastante respondonas. Do tipo que sabe que é buffet mas pede para você fazer o prato dela.  E depois disso te dá 2% de gorjeta.

As últimas seis semanas foram a “melhor” parte: a experiência completa do que é trabalhar numa cozinha. Todos os postos. Todas as obrigações. A câmara de refrigeração. A de congelação. E gente, a melhor parte: eu era a encargada da higiene. O que a encargada da higiene faz quando vê alguém jogando óleo na pia? É, vocês podem imaginar o clima de ódio e stress dentro da cozinha.  Uma coisa que todo mundo sabe sobre as cozinhas é que alí só tem gente estressada, brava e respondona. Do príncipio ao fim, infelizmente.

quando eu era garçonete também cuidava das flores e centros de mesa.

quando eu era garçonete também cuidava das flores e centros de mesa.

por trás do suco natural do buffet, sempre há um escravo que expremeu 3 vezes seu peso de laranjas

por trás do suco natural do buffet, sempre há um escravo que expremeu 3 vezes seu peso de laranjas

saldo da cozinha: dois dedos sem um pedaço e quatro dedos queimados depois de agarrar uma forma tão quente quanto o inferno

saldo da cozinha: dois dedos sem um pedaço e quatro dedos queimados depois de agarrar uma forma tão quente quanto o inferno

Há quem diga: “queria ser chef, né? agora aguenta” ou “você já sabia” ou que pergunte porque não escolhi uma “profissão de verdade”.

Apesar do cansaço, das noites mal dormidas, da dor nos pés e no corpo, o stress, o clima pesado da cozinha… eu não me vejo fazendo outra coisa senão estar dentro de um restaurante. Eu adoro tudo sobre isso: eu adoro atender os clientes mal humorados, e outros nem tanto assim que no fim do dia vão te agradecer pela gentileza e te elogiar pelo seu esforço, pelos outros que vão adorar sua comida e alguns que vão dizer que não gostaram… Toda essa experiência do restaurante-escola foi uma das melhores e mais completas que eu poderia ter antes de sair da faculdade, essa liberdade de estar em contato com o cliente e que o cliente esteja em contato com você não tem preço.

Ser Chef pode ser a profissão mais desgastante. Mas com certeza também é a mais gratificante. E eu sei que estou no caminho certo!

 

 

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Ana Poli

From Brazil to the world, living life one bite at a time ;)

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